Reagrupar, recuperar, avançar!
A estrada de volta a Myratma parecia mais longa do que realmente era. Talvez fosse o cansaço. Talvez o veneno ainda correndo lento nas veias. Talvez o silêncio, pesado e denso, que acompanhava cada um deles após a noite de chuva, sangue e teias.
As docas de Myratma os receberam com o cheiro familiar de
sal, madeira úmida e segredos. Não havia tempo para orgulho ou formalidades.
Ferimentos precisavam ser tratados, e rapidamente.
Eles estavam acostumados, e o hábito os conduziu por
caminhos pouco iluminados, entre armazéns esquecidos e vielas onde lanternas ousavam
ficar acesas por pouco tempo. Ali, escondido entre duas construções inclinadas,
havia um templo.
Ou algo que tentava ser um templo.
Símbolos toscos, mas honestos. E marujos e bêbados, buscando
redenção, curas, ou um teto para a noite. Mas, para quem sabia procurar, e
tinha algumas moedas sobrando, a sorte sempre abria algumas portas. Ali a porta
chamava-se Konstanto.
Magro, de sorriso enviesado e olhos que avaliavam mais do
que acolhiam, ele os recebeu como quem reconhece tanto a necessidade quanto a
oportunidade.
- Tymora sorri para os ousados - dizia, enquanto preparava
seus rituais. - E ela sabe que essa ousadia recompensa tanto os aventureiros
quanto aqueles que os abençoa.
As curas vieram como uma maré suave, lavando a dor, fechando
feridas, estabilizando corpos que haviam sido levados além de seus limites. O
veneno saí por poros ou por jorros, purificando corpos e reacendendo ânimos.
Mas Konstanto não deixava dúvidas. - Quando encontrarem o
que procuram - dizia, quase distraído - sei que a deusa será lembrada!
Tesouros. Relíquias. Ou algo de valor. Nada mais justo, para
alguém que servia à sorte.
***
Curados, mas não em paz, os heróis partiram novamente. O
mapa de Duran, irregular, quase infantil em seus traços, era, ainda assim, o
melhor guia que possuíam. Levava a uma região afastada, onde três marcos
delimitavam o território: Um bosque silencioso, uma torre abandonada e um
pântano. Três destinos delimitando o armazém suspeito de conter os elfos
selvagens prisioneiros.
Chegaram no meio do dia. As ruínas se erguiam baixas e
largas, como os restos de algo que um dia tivera propósito, mas agora apenas
resistia ao tempo. Pedras antigas, cobertas por vegetação, em um ponto central,
elevado, cercado de um terreno quase pantanoso, de tanta umidade.
Dois guardas vigiavam a entrada. E o grupo não conseguiu ser
furtivo o suficiente. Um deles não hesitou, correu para dentro, gritando algo
que o vento engoliu antes de alcançar os ouvidos dos heróis.
O outro… o outro era um elfo selvagem. E ao ver Petros
Wolfgang, o medo tomou conta de seu rosto de forma tão crua que por um instante
ninguém se moveu. Não era apenas pavor. Ele recuou e fugiu, não para o armazém,
mas em direção ao pântano, desaparecendo entre a vegetação densa como se jamais
tivesse estado ali, deixando nos heróis a dúvida: quem era esse elfo?
***
Os heróis desceram as escadas em direção ao confronto. O
interior do depósito estava vivo. Não com vida, mas com movimento. Homens.
Armas. Correntes. Sinais de que muita coisa acontecia naquele local.
E o grupo percebeu logo que os mercenários não hesitaram. Lâminas
foram erguidas. Cordas puxadas. Golpes desferidos. E os gritos começaram. O
tempo pareceu se fragmentar.
Os heróis avançaram em meio ao caos, mas já era tarde para
alguns. A batalha que se seguiu foi brutal. Sem honra. Sem recuo. No meio dela,
como uma sombra sólida entre homens comuns, estava o líder dos mercenários.
O assassino. O mesmo que matara Duran.
Seus movimentos eram precisos, econômicos, quase elegantes, cada
golpe pensado, cada passo calculado. Ele lutava como quem já sabia o desfecho
de cada movimento, ora recuando, ora desaparecendo dos olhos com uma poção
mágica.
Mas desta vez, ele não estava lidando com um mercenário
arrogante. Estava diante de um grupo que já havia atravessado morte, veneno e
algo pior.
A luta foi longa e muito sangue manchou as pedras antigas. O
ar tornou-se pesado com o cheiro de ferro e esforço. Um a um, os mercenários
caíram. E por fim, o assassino. Cercado. Ferido. Ainda perigoso. Ele não
implorou, não tentou fugir.
Morto, sua cabeça caiu ao chão antes que pudesse dizer
qualquer última palavra.
***
O silêncio que veio depois foi ainda mais pesado do que o
combate. Correntes foram quebradas. Corpos foram examinados. Mas entre os elfos
capturados, apenas um ainda respirava. Um. O elfo sobrevivente mal conseguia
manter os olhos abertos. Sua respiração era fraca, irregular. Mas havia vida
ali. Os heróis não fracassaram, pois salvar os elfos não era sua missão. Mas
eram vinte corpos inocentes no chão, e apenas um havia permanecido com vida.
Parecia um fracasso.
Com a cabeça do assassino ensacada, o objetivo passou a ser
investigar o armazém de forma mais detalhada. Encontraram peças de ouro.
Encontraram tesouros, e itens mágicos. E, mais importante, encontraram pistas.
Notas de negócios assinadas por diversas famílias menores,
para serem trocadas por produtos diversos em Myratma. Um pergaminho com orientações
de como chegar ao armazém e como os mercenários deveriam proceder, e outro com
o preço estipulado pela captura e manutenção dos elfos selvagens... apenas 100
peças de ouro por semana. E um conjunto de três pequenos sinos de bronze. E um
novo mistério. A assinatura dos pergaminhos, em uma caligrafia bastante
rebuscada, vinha apenas com um EF.
Mas a lista de suspeitos acabou não diminuindo. Nas amarrações
utilizadas nos elfos via-se o gargalo de dogal invertido, nó amplamente
utilizado por mercenários vindos de Calimshan, frequentemente em conluio com os
comerciantes Sarnholt.
A investigação precisaria continuar, e novos planos
precisariam ser traçados.
***
Lá fora, o vento começava a soprar sobre o pântano. E em
algum lugar, longe dali, ou talvez não tão longe quanto gostariam, alguém ainda
movia peças que os heróis não conseguiam enxergar.

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