Os primeiros passos...
A chuva ainda não havia começado quando tudo teve início, mas o ar de Myratma já carregava aquele peso invisível que antecede as tempestades, o tipo de silêncio que faz marinheiros evitar assobios e mercadores contarem moedas duas vezes.
Foi Tavien, o senescal, quem os
chamou. Um homem de postura rígida e voz controlada demais para alguém que
dizia não estar preocupado. Ao seu lado estava Aliana Errlyk, jovem herbalista,
que paracia carregar uma sombra nos olhos. A família Errlyk mantinha, havia
gerações, um acordo discreto com os elfos selvagens da distante floresta de
Wealdath. Três encontros nos últimos meses. Três vezes, os elfos não vieram. Nenhuma
mensagem. Nenhum mensageiro. Nenhuma explicação.
E isso, em política, significava
algo.
Os heróis viviam em Myratma. A
cidade era sua, seus becos, suas pontes, seus telhados e suas aventuras. Não
eram forasteiros. E por isso foram escolhidos.
A investigação deveria ser
silenciosa.
***
A taberna O Péssimo Sujeito
ficava na região do porto, afundada como um segredo sob o nível da rua. O chão
era terra batida. No centro, um fogareiro onde carnes estalavam sob gordura e
fumaça. As mesas eram esparsas, ocupadas por homens que falavam pouco e bebiam
muito. Na parede, cartazes prometiam trabalho e perigo em proporções quase
iguais.
Sylas, Telchar e Gruntar entraram
como homens acostumados a lugares onde ninguém faz perguntas se você não fizer
primeiro.
Foi Telchar quem ouviu: “veado
dourado no bosque”.
A expressão era antiga. “Veado
dourado” era como alguns chamavam os elfos selvagens, não com admiração, mas
com a ganância de quem vê caça.
O homem que falava chamava-se
Duran. Mercenário. Sorriso largo demais. Ele recrutava aventureiros para
recuperar um cadáver enterrado ao norte da cidade. Disse, sem cerimônia, que
participara da captura de elfos meses antes. Fora expulso do grupo por matar um
deles, os outros queriam todos vivos. Todos vivos.
Encontrar-se-iam ao amanhecer, no
portal norte. Gruntar garantiu que eles estariam lá.
***
Nas docas oficiais, sob mastros
rangentes e cheiro de sal e peixe velho, Elanor, Onê, Petros e Nasse-ir seguiam
outro fio da trama.
A família Valmaris, outrora
poderosa, agora decadente, surgira em rumores de suborno. Depois de pequenas
encenações e mentiras cuidadosamente plantadas, chegaram a Miro, o inspetor
naval. Ele não revelou muito. Apenas um nome: Johann Valmaris. Jovem.
Promissor. Bem visto pela cidade.
Mas promessas costumam florescer
em solo fértil de dívidas.
No prédio administrativo, um
funcionário antigo, Daniel, falou de um navio: Vento Sombrio. Três visitas em
um ano. Cargas sigilosas. Descarregadas sem registro, sempre enviadas por
terra.
Nada oficialmente errado. Nada
que um escriba pudesse provar. Mas o silêncio em torno do navio era mais
eloquente do que qualquer documento.
***
Na manhã seguinte, o grupo
reuniu-se sob o céu pálido. Duran os aguardava com um clérigo chamado Damn e
cinco mercenários. Entre eles, um homem de olhar inquieto, um dos que fora
recrutado na taberna.
Duas horas de caminhada até um
ponto próximo a um bosque, na fronteira de plantações recentemente adquiridas
pela família Malduin. Havia sinais de luta, mas poucos sinais de sangue.
Elanor e Gruntar notaram algo que
os outros não perceberam de imediato: um rastro quase invisível de alguém que
rastejara em direção às plantações. O corvo de Elanor subiu aos céus e retornou
com notícias: uma pequena vila de casas agrícolas adiante. Apenas uma parecia
habitada.
O cadáver foi desenterrado.
Damn ajoelhou-se e invocou
palavras antigas. O morto respondeu. Falou de sinos dados pelos anciões. Falou
da localização de sua vila na Wealdath. Falou do Mythal que protegia sua terra.
Enquanto o ritual ocorria, o
mercenário inquieto movia-se ao redor, como um animal preso à própria pele.
Então, uma explosão. Não grande.
Não destrutiva. Apenas suficiente. No instante seguinte, Duran estava morto. A
lâmina atravessara-o com precisão. Gruntar ouviu o sussurro que o vento quase
levou: Elandor envia lembranças.
O assassino fugiu — e
desapareceu.
***
Os heróis seguiram o rastro nas
plantações e ncontraram uma clareira. Sangue. Runas gravadas na terra. Elanor
ajoelhou-se. A palavra formava-se com clareza: socorro. Mas havia mais. Um
aviso. Um selo.
Quando seus dedos tocaram os
traços marcados, uma imagem invadiu sua mente, desfocada, desgastada pelo tempo
como as próprias runas. Uma figura. Um rosto quase reconhecível. E uma sensação
de perigo.
Alguém se esforçou muito para
criar aquele alerta.
***
Nas casas da fazenda, um idoso os
recebeu com olhar desconfiado. Disse que ninguém mais vivia ali desde que os
Malduin compraram a propriedade. Mas levou-os até um elfo encontrado na
plantação. Vivo, mas paralisado.
Nasse-ir examinou as marcas
arroxeadas no corpo e reconheceu técnica, golpes metódicos, perfeitos. Não
brutalidade. Precisão. Damn tentou curá-lo. Falhou.
O idoso permitiu que ficassem,
mas preferia que partissem. Algo o assustava. Mesmo assim, os heróis ficaram.
Precisavam ficar, pois queriam replicar a magia de falar com os mortos para
interrogar o cadáver de Duran.
Quando a noite caiu, a chuva veio
com violência. E com ela, as aranhas. Gigantes. Movendo-se não apenas pelo
chão, mas pelo próprio tecido do espaço. Teletransportavam-se em saltos breves
e mortais.
Sylas, Nasse-ir e Damn foram
atacados primeiro. O veneno queimava como fogo líquido. A batalha foi brutal.
Três criaturas tombaram. Mas a quarta arrastou Damn para as sombras. Um grito
vindo da outra casa revelou um ataque inesperado. Quando os heróis invadiram a
casa do idoso, ele havia desaparecido. O elfo paralisado também. E o cadáver de
Duran.
***
Ao amanhecer, sob o céu lavado
pela tempestade, o corvo de Elanor retornou com nova descoberta, uma caverna no
meio das plantações, com indícios de teias. Provavelmente o covil. Talvez as
aranhas tivessem sido atraídas pelas vibrações do caminhar, ou talvez
guardassem algo.
Agora, diante da terra encharcada
e das escolhas que se multiplicavam como sombras ao pôr do sol, os heróis
precisavam decidir:
A caverna?
A cidade?
Elandor, o nome sussurrado antes
da morte?
E em Myratma, onde navios descarregavam segredos e famílias sorriam por trás de máscaras polidas, a tempestade ainda estava longe de terminar.

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